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DO CONTEXTO E SUAS CONTROVÉRSIAS Breve reflexão para o início do ano letivo de 2010 no Colégio Medianeira
“A política, vírgula: a democracia e a boa governança. A disparidade dos mortos não é só imensa entre países ricos E pobres; também é entre países democráticos e não democráticos...” (João Pereira Coutinho, 2010)
“ E os políticos muito seguros voltarão a se ocupar de suas almas- Ou melhor, da alma de suas finanças. Tristes tempos.” (José Arthur Giannotti, 2010)
Férias é tempo de descanso, do ócio que não precisa ser produtivo, das leituras que ficaram para trás, de encontrar pessoas e lugares que há muito não se veem. Não se fala aqui necessariamente do tal ócio produtivo ou coisa que o valha. Ócio é ócio! É não fazer nada do que é comum no dia-a-dia atribulado do ano. Então não se tem que dar adjetivo especial para esse tempo e ao não fazer. É descanso das lidas comuns e pronto! Nesse final de ano, aconteceram coisas comuns e incomuns “como sempre”: Natal e festas de início de 2010; as propagandas do Carnaval já em janeiro; aqueles noticiários “inovadores” com o número de carros nas estradas indo e vindo; as mesmas fotos de famílias e diversão nas praias; acidentes nas estradas e exageros de quem festejou demais; assaltos diversos e o janeiro mais violento dos últimos 8 anos; como nos 10 últimos janeiros, o novo BBB (do qual já se tornou politicamente correto dizer que não se gosta, mas que muitos vêem por debaixo do pano para ninguém saber); a novidade do maior edifício do mundo em Dubai (818 metros de altura e 100 m mais alto que o Corcovado) que ninguém ainda sabe para que serve; o aumento da discussão sobre o clima, com cientistas contrapondo-se a versão de aquecimento global através de uma teoria de aquecimento cíclico do sol e apontando para a questão climática como nova tendência de comércio (o grande problema não seria o aquecimento e sim o uso das riquezas da terra acima de sua capacidade); as chuvas e as enchentes mostraram, mais uma vez, a fragilidade de nossas cidades inundadas e milhares de brasileiros fora de suas casas... Na sua maioria são coisas de final e início de ano, porém seria indispensável destacar duas situações para 2010, as quais não podem passar despercebidas: o Haiti e o ano de eleições no Brasil- e essas duas questões são drasticamente interdependentes. Por isso a proposta desse momento é tratar das duas situações juntas na perspectiva da retomada da análise e inserção política/contextual. Um estudo de dois economistas (Laura Jaramillo e Cemili Sancak) sob o título “Porque a grama é Mais Verde em um Lado da Hispaniola” apresenta um levantamento intrigante e catastrófico sobre o Haiti que vai além das manchetes e imagens preponderantes na mídia escrita, falada e eletrônica. O Haiti e a República Dominicana dividem a ilha Hispaniola, sendo que em 1960 o PIB per capita dos dois países era quase idêntico: um quarto da média latino americana. Em 2005 o PIB per capita da República Dominicana triplicara (US$7400) - sendo o país que mais cresceu na região - enquanto o do Haiti fora reduzido quase pela metade e o país ficou na lanterna de toda a região (US$1300) - a renda per capita brasileira é de US$9400. De 1990 a 2008, a economia do Haiti cresceu apenas 5%, enquanto a América Latina cresceu 82%. Essa situação foi resultado de uma história de abandono, pobreza, ditaduras, explorações de Corporações do Norte e das sanções econômicas após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide em 1991. As exportações caíram 40% (para um terço em relação a 1991), a economia encolheu 30%, a receita do governo declinando pela metade. Nesse período, o país cresceu menos que entre 1960 e 1980 sob as ditaduras dos Duvallier. A indústria têxtil e as maquiladoras mexicanas baseadas em zonas francas (fabricavam bolas de beisebol, equipamentos elétricos, brinquedos) foram destroçadas e o emprego caiu só nesse setor de 80000 para 6000 trabalhadores. Em 1960 a expectativa de vida era de 44 anos e em 1970 o analfabetismo atingia 78% da população maior que 15 anos (contra 33% da República Dominicana). O escritor cubano, Alejo Carpentier, em “O reino deste mundo”, conta um pouco dessa dor permanente de um povo que se fez independente por uma rebelião de escravos, sonhou com um mundo livre e experimenta a morte permanente e o esquecimento de todo o planeta no terremoto permanente e miséria a que é submetido. É absurdamente dramático e esclarecedor acerca do racismo branco que tem mantido o país na miséria e esquecimento, o comentário do Cônsul do Haiti em São Paulo, captado sem que ele soubesse estar sendo gravado quando se preparava para um programa no SBT: “Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo. O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano está fodido.” Na sequência o mesmo senhor comenta que a tragédia estava “sendo uma boa” porque “o país fica conhecido”. Carlos Heitor Cony lembrou, em artigo na Folha (17/01/10), acerca do terremoto de Lisboa, que mereceu um célebre poema de Voltaire (1756) sob o título “Poema sobre o Desastre de Lisboa” no qual o autor dizia descrer em Deus como ser superior que cuidasse dos destinos humanos. Lisboa não tem mais desastres nos terremotos, pois desde Pombal reestruturou-se e a União Europeia ajuda a garantir uma estrutura e padrão de vida que quase elimina essa possibilidade. Os 18 últimos terremotos nos EUA (na mesma escala que esse no Haiti) não mataram mais que 143 pessoas. Há, portanto, algo mais que os insondáveis mistérios da natureza na tragédia desse país! O desastre do Haiti não mereceu poemas de descrença nos homens ou em Deus embora seja a maior catástrofe dos últimos 200 anos e tenha matado cerca de 200000 pessoas. A solidariedade internacional é necessária agora, mas não resolve o seu problema histórico. Pode minorar a falta de água, de comida, de roupa, de casa, de segurança... No entanto, não encara o desastre histórico da nação mais pobre das Américas. O Haiti não é aqui, mesmo que o Brasil tenha inúmeros Haitis esquecidos dentro de seu próprio território. O retrato das perdas, da luta pela comida, do desespero de pais que perderam seus filhos... tudo isso impacta, porém não pode deixar esquecer o medo que a revolução de escravos que libertou o país causou em seus vizinhos escravocratas e o perigo que significou a todos eles. “Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.” (Eduardo Galeano, 2010) O Haiti precisava ser esquecido e a vitória dos fracos abandonada à própria sorte para que não servisse de exemplo a ninguém, escreveu Giannotti em 17 de janeiro (Folha – caderno MAIS). Dizia ele: “Nas guerras das estrelas esse conflito não comparece, como se desdobrasse entre duas forças, de tal modo transformadas pela técnica que se resolvem numa luta entre o espírito do mal contra o espírito do bem?” No Haiti há sangue, não há tecnologia avançada e a fratura humana da falta de solidariedade, do cuidado humano e da união dos povos está exposta. É nosso Afeganistão, nossa Etópia, nosso morro do Rio que desmoronou, nosso Nordeste sem água e comida, nosso Jardim Ipê (São José dos Pinhais) com toque de recolher... mas é muito mais que tudo isso, pois expressa o jeito de tratar o Outro e a nossa falta de reciprocidade permanente. É o retrato de um país e de um povo esquecido e explorado. É como se o coronel-fazendeiro Quatric tivesse derrotado os Na’vi na terra de Pandora do filme Avatar. Os vales e a beleza da Ilha Hispaniola estão cheios de sangue e morte há muito tempo, mas a sensação é como se a caixa de Pandora tivesse sido aberta só agora com um terremoto. Os haitianos já mataram 20 dos 21 presidentes entre 1843 e 1915 num tsunami político/social permanente na busca pelo fim da corrupção e na procura da própria identidade roubada pelos colonizadores e seus vizinhos do Norte. O livro “Colapso”, do geógrafo Jared Diamond, pode ajudar em mais detalhes dessa tragédia anunciada e espantar o determinismo geográfico ou a força da natureza como razão da destruição. Olhar para o Haiti é olhar para a América Latina toda e para a história dos esquecidos cuja dor somente aparece nas catástrofes, fazendo os bem alimentados chorarem diante da televisão, mas depois a vida volta ao normal. Assim tem sido tratadas todas essas situações transformadas em espetáculo de dor e compaixão passageiras. Talvez seja por isso que, no turbilhão de mais essa tragédia com o povo haitiano, os Meios de Comunicação tenham gastado três dias inteiros para falar da morte de uma brasileira que estava lá: Zilda Arns. Com o perdão e o reconhecimento ao seu trabalho, só pode ter sido para cultivar a personalização da dor e dos personagens, talvez nos fazer sentir solidários através de alguém, mas certamente porque à oficialidade não importa contar a história inteira desse povo - de nenhum povo. Aí, então, tudo já fica resolvido e o espetáculo pode continuar. Para atestar o que foi dito até aqui, resgatem-se trechos de uma Carta Aberta publicada por um grupo de acadêmicos haitianos, dizendo entre outras coisas: “ Nós, acadêmicos e intelectuais haitianos, revirando ainda os escombros de nossas casas e vidas destruídas, esperamos ser ouvidos por cima dos clamores de comentaristas e autoridades. Isso é tanto mais importante porque o futuro do Haiti se decide agora... mas essa catástrofe foi anunciada... nenhuma criança haitiana foi orientada a buscar proteção sob um móvel ou sob o umbral das portas... Os bilhões de dólares gastos nos últimos 15 anos geraram resultados pífios... O que restava do Estado haitiano ruiu junto com a capital. O colapso do palácio presidencial, da Assembleia Nacional e da maioria dos ministérios serve como uma metáfora bem adequada. A destruição do Estado haitiano, iniciada há 50 anos, foi completada... Nenhum de nós chegou a se surpreender com a completa ausência do Estado há muito morto... O público internacional deve saber que o presidente haitiano está desacreditado aos olhos do povo, o mesmo acontece com a ONU... É necessário criar um comando central que una os mais respeitados representantes do Haiti e os Estados internacionais e qualquer coisa além disso resultará em fracasso e não gerará um mínimo de confiança. Enquanto a confiança se esvai e o povo haitiano desespera-se, só resta contar com a boa vontade de nosso amigos da República Dominicana, do Brasil, do México e, falhando todos, de Deus.” (Folha, 24 de janeiro de 2010). Mais do que nunca é necessário, por essas e tantas outras razões, resgatar a política em seu sentido amplo: como cuidado e administração do bem comum e de todas as pessoas. A supremacia do economês e do psicologês tem afastado a discussão coletiva, o sentido histórico dos problemas. Transforma-se tudo em estatística e/ou em situação terapêutica! Aqui no Brasil, em seu sentido mais restrito, o mundo político anda agitado pelas movimentações em vista das eleições de 2010 e as arrumações eleitorais e eleitoreiras parecem ir de vento em popa. O congresso nacional - o legislativo de modo geral - continua eleito pela mídia para sua pretensa campanha de moralização pública. É fato que ninguém tenha uma réstea de dúvidas das falcatruas que rondam os altos poderes da sempre nova/velha ordem. Todo dia aparecem novas denúncias e escândalos para corroborar nessa construção de uma leitura depreciativa da política. A mais nova e absurda imagem veio ao se fecharem as cortinas de 2009 com o vídeo e as imagens das doações espúrias em Brasília, envolvendo o governador Arruda e a Assembleia Distrital com um inusitado meio de transportar a propina: a meia. É, depois da cueca, veio a meia e todas as possibilidades de humor e horror que essa situação representa! No entanto, a “grande mídia” é parte constituinte desse mundo e seu jogo; em nome da liberdade de expressão, funciona como defesa permanente da sua ação destrutiva e como desserviço à informação e formação política da população. Os eventos apresentados como dramáticos compõem a situação de permanente despolitização da coletividade. Confunde-se com intencionalidade a toda prova a política com o fazer político corrupto, o que contribui para a debandada generalizada da participação nas coisas públicas e do exercício da cidadania. Os e-mails e as correntes que infestam nossos computadores, falando em não votar ou delineando mais um abuso financeiro, possuem esse ingrediente de ferocidade alienadora aterrorizante. No centro dessas discussões o planeta sobrevive, respirando ar cada dia mais asfixiante, ainda que se aponte para cuidados nas emissões e exploração por parte das grandes economias mundiais. Registre-se, aqui, o estrondoso fracasso da última conferência mundial, na qual apenas as nações de médio e pequeno porte comprometeram-se e só foi possível uma manifesto frágil e sem compromissos como resultado de todos os esforços e esperanças mundiais. Talvez, a médio prazo, seja possível aspirar um mundo em que se pense no planeta e os mais ricos deixem de consumir estupidamente e enviar seus lixos aos pobres (literalmente em Containers ou veladamente nas suas sobras tecnológicas). Tudo isso contribui para que alguns poucos possam continuar a controlar setores vitais da vida do país e da montagem do imaginário coletivo da população. Repolitizar, por isso mesmo, talvez seja um dos eixos centrais da ação educativa e da ação cidadã de todos nós, mais do que nunca. No entanto, não é a mesma política, o mesmo foco, a mesma problemática e o mesmo mundo dos anos 70 e 80 do século passado que exige essa demanda. Os últimos 20 anos trouxeram mudanças globais, nacionais e individuais que precisam ser revisitadas. Se coletivamente experimentam-se situações constrangedoras e a despolitização crescente da população, é indispensável repensar a ação em sala de aula e nos trabalhos coletivos da escola para que o conhecimento seja menos conteudista e mais expressão da leitura da realidade. Esse é um desafio indispensável para 2010 e ele é importante porque: nos distanciamos do contexto/realidade em nosso trabalho com os alunos e entre nós; porque em ano eleitoral é um debate indispensável; porque se trata de um tecer de novo os referenciais coletivos e pessoais para se viver... A política não atrai mais não apenas pela corrupção e sim pelo fato de que a preocupação com a boa administração deu lugar à autoadministração. Transformam-se queixas coletivas em problemas sociais susceptíveis à intervenção terapêutica, como diz Lasch. Daí o sucesso crescente dos psicólogos e psiquiatras, tomando o lugar dos políticos e dos educadores. Dessa mesma fonte nasce a certeza de que bastam bons gestores e uma macroeconomia acertada para que as coisas funcionem no país e no mundo. Trata-se do neopositivismo renovando-se permanentemente. No entanto, mais do que nunca, as preocupações pessoais e coletivas estão vinculadas ao tema da felicidade. Porém, felicidade hoje em dia quer dizer evitar a autodepreciação. Assim, o individualismo militante e disciplinar deu lugar ao individualismo a la carte - hedonista e psicológico. A felicidade foi privatizada na relação entre o consumidor e a mercadoria que o satisfaz. Para repolitizar é necessário recomeçar por essa discussão: como retomar as causas coletivas e ressignificar a felicidade, além do consumo? Não basta procurar nas folhas amarelas! A afirmação acima é importante porque a felicidade parece poder ser alcançada com uma série de novas compras e novos restaurantes... ainda que os bares continuem a ser, em tantos casos, a salvação do encontro de amigos. É onde ainda conseguimos fazer nossas revoluções festivas! Por outro lado, quando as compras e a sofisticação consagra os novos VIPs, é fato que a maioria da raça humana está fora dessa possibilidade. Num shopping não se vai encontrar amizade, os prazeres da vida doméstica, a ajuda a um vizinho com dificuldade, o respeito aos colegas ou a proteção contra o desprezo e a humilhação. Busca-se o consumo e o transitório e esse encontro entre o consumidor e a mercadoria mata o instinto artífice e criador pela facilitação e o evitar que o homem tenha que se desgastar para realizar ações do dia-a-dia. Há sempre uma nova engenhoca pra resolver o problema, porém, como o consumo não pode acabar e só com novas aquisições é que se chega à felicidade, está criado um panorama de realizações momentâneas que nada tem a ver com realização pessoal e/ou projeto de vida. Afinal, para que projetos a longo prazo? Para que o até que a morte nos separe? Para que o discernimento e o juízo de valor? A solução é a curto prazo! Na cultura anterior, possivelmente a nossa, a pessoa nascia com uma identidade definida. Agora cabe a cada um construir a sua identidade, remodelando-se com os equipamentos que fazem parte do seu dia-a-dia. Antes fazia um projeto para a vida, agora os projetos são momentâneos e precisam ser montados e desmontados. É uma espécie de contrato por um tempo que logo passa e há reprocessamento constante. Numa vida dividida em episódios ou fatias independentes com enredos e finais próprios, cada episódio pode ter um elenco e os parceiros do episódio anterior são descartáveis. Como na história do super homem (homem superior), a marca do passado só pode ser dos seus próprios feitos. O passado soa como um solitário ranger de dentes! O problema é que o homem morre a partir do momento que não traça mais metas que pareçam impossíveis e que tenham relação com o futuro. Isso porque a felicidade está sempre um passo à nossa frente e ela nos move. Não basta calcular o que dá para fazer depois do plano de saúde, da educação das crianças, da manutenção da casa, das novas roupas, das pensões aos ex-parceiros e da prestação do carro. Embora isso faça parte e seja necessidade de nosso plano de sobrevivência, reduzir a felicidade a isso mata a humanidade da pessoa. Contribui definitivamente para um mundo sem alma! Talvez seja por isso que o novo nome da infelicidade e a expressão mais corriqueira (depois do estou estressado) seja TÉDIO. Tédio é a extrema infelicidade, o não poder se divertir, não poder ou não ter o que fazer, a ausência da ação que entretém, o vácuo de atividade, a impossibilidade da ação que satisfaz... Se importa o momento, como educar para a vida? Como desenvolver uma opção educativa com projeto de vida? Como repolitizar e recriar compromisso com o país e com os outros? Como ir além do espetáculo de morte e dor do terremoto no Haiti? Como nosso jeito de educar pode reconstruir sentidos e compromissos? Se a privatização da vida e da identidade é permanente, como pensar a convivência de grupo e o espaço público? Enfim, há um desafio e uma demanda nova ao pensar a educação, a formação, a cidadania e a política. Insista-se que 2010 apresenta uma oportunidade ímpar para a retomada desse debate e do repensar de nossa ação formativa. O momento parece exigir uma profunda interlocução e interelação entre o individual e o coletivo, entre a vida intensa do momento e os projetos de futuro, o bem pessoal e o bem comum, o cuidado com a pessoa e com todas as pessoas, o imediato e o mediato, a escola e a cidade, o real e o virtual↔real, o nacional e o transnacional, o individual e o diverso... Enfim, o perigo e o desafio de reumanizar estão postos a todos, mas em especial tem lugar no trato com a educação que se pretende herdeira do repasse das conquistas da humanidade às próximas gerações. Não fazê-lo reporta-nos à última frase de George Orwell em “A Revolução dos Bichos”: “E já não se sabia quem era homem e quem era porco.”
Adalberto Fávero - Diretor Pedagógico Serviço de Orientação Pedagógica |